Em três poetas da periferia, publicados na
Era Lula, versos de quem labuta diariamente, mas extravasa as
inquietações sem o formalismo literário — com bom-humor, xaveco e fino
olhar para as opressões, mas sem os punhos erguidos
Publicado 14/08/2020 às 17:01 - Atualizado 14/08/2020 às 17:27
Como
fiz no artigo anterior, sigo analisando neste texto obras de autores
publicadas no auge da literatura periférica que coincide com o
segundo mandado do ex-presidente Lula, período em que a periferia
teve uma redução da pobreza, embora não da desigualdade. Uma época
de certa fartura e euforia na quebrada. Compartilho aqui a leitura de
livros de três poetas da periferia da Zona Sul, nascidos nos anos 70
e frequentadores do Sarau da Cooperifa: Fuzzil (Levi de Souza);
Casulo (Gilmar Ribeiro) e Lobão (Evandro).
Fuzzil
publicou
Um presente para o Gueto (2007). O livro do Casulo
tem como título
Dos olhos pra fora mora a liberdade (2009) e
a obra do Lobão chama-se
Fam da Rua (2010). Trata-se de
literatura de trabalhador feita por quem está na labuta e encontra
nos versos uma forma de extravasar suas inquietações e percepções
da vida, porém, sem o formalismo literário classista.
Os
autores não são operários de fábrica, trabalhadores de escritório
ou funcionários públicos. São microempreendedores individuais,
para usar uma terminologia burocrática. Fuzzil foi vendedor por
muitos anos e continua exercendo o ofício, agora com sua própria
confecção; Lobão faz bijuteria e as vende em feiras de artesanato
e Casulo é dono de funilaria e exímio reparador de funilarias
danificadas. Os três produzem uma poesia liberta de ditames de uma
arte politizada e com isso criam sua própria estética e uma forma
muito particular de discurso político. Na leitura conjunta das obras
observei uma estrutura de sentimento
1
que tem um impulso no incômodo com as injustiças, uma contensão
que é a recusa da crítica ideologizada e um tom de rebeldia não
engajada.
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Fuzzil
Um
Presente Para O Gueto, publicado pela Edições Toró tem projeto
gráfico e editorial totalmente fora do padrão. Os 61 poemas da obra
estão dispostos em folhas separadamente, como se fosse um fichário
e são acondicionadas num estojo de papel kraft, acompanhado de um
giz branco. A concepção editorial é do editor da Toró, Allan da
Rosa, e a capa e ilustrações são de South. Akins Kinté faz a
apresentação que está publicada no final como se fosse um
posfácio.
Levi
de Souza nasceu em 1976 em São Paulo, cresceu no bairro do Capão
Redondo. Foi manobrista, serralheiro, segurança, vendedor de água e
refrigerante em porta de estádio até tornar-se rapper e educador em
projetos sociais. Passou a frequentar o Sarau da Cooperifa por volta
de 2005.
Um Presente Para O Gueto, é seu primeiro livro.
Posteriormente publicou mais três obras:
Gaturra, em 2010
(Edições Elo da Corrente),
Céu de Agosto, em 2013 e
Um
abrigo contra a Tempestade em 2017 (ambos com o selo da Academia
Periférica das Letras). Ingressou no curso de Letras no ano em que
lançou seu primeiro livro mas interrompeu os estudos.
Casulo
Gilmar
Ribeiro nasceu na Bahia, em 1974, e se estabeleceu em São Paulo, em
1992. É funileiro e faz arte com sucata de automóveis. Frequentador
assíduo da Cooperifa há 15 anos, Casulo participou do CD de 2006
lançado pelo Sarau.
Dos Olhos Para Fora Mora A Liberdade foi
publicado em 2009 com o apoio da ONG Ação Educativa e o carimbo da
Cooperifa e segue sendo seu único livro, porém, a obra teve uma
reedição em 2013, publicada pela Editora Filoczar acrescida de
outros sete poemas. Nessa segunda edição, a poeta Maria Vilani fez
um novo prefácio inspiradíssimo. Analiso aqui a primeira edição
que reúne 107 textos entre poemas, prosa poética, crônicas, contos
e vários aforismos. O livro tem formato 14 cm x 21 cm e 138 páginas.
Sergio Vaz escreve uma orelha e na outra há um texto de apresentação
do poeta. Há sete anos Casulo mantém o projeto Clamarte no Grajaú
que tem um sarau mensal como uma das atividades. O recital é
realizado na sua própria funilaria na qual expõe suas obras feitas
em metal customizado.
Lobão
Evandro
Lobão é hippie, produz e comercializa brincos, pulseiras e outros
artesanatos que vende no Centro de São Paulo e no Litoral,
especialmente em Ilha Bela. Morador do Capão Redondo, amigo de
Ferréz, é frequentador do Sarau da Cooperifa há muitos anos.
Sujeito carismático e despojado, atrai a simpatia de muita gente.
Sua poesia despretensiosa é irônica e sarcástica seja qual for o
tema abordado: uma mulher bonita ou a usura de um capitalista
nefasto. Por essa razão, suas declamações geram muita gargalhada
dos ouvintes e são sempre muito aguardadas no sarau. Em 2010, Lobão
publicou
Fam da Rua um pequeno livro com 20 poemas. Em formato
de bolso (10 cm x 15 cm), projeto gráfico e diagramação simples, o
livrinho teve edição sob responsabilidade do selo Círculo
Contínuo. Essa obra continua sendo seu único livro publicado.
Um
presente para o gueto
O
livro é dedicado à memória do pai e da filha do autor. A dor da
perda desses entes tão próximos justifica o traço melancólico
presente em alguns de seus textos, fazendo-o destoar de Lobão e
Casulo na forma, mas não no conteúdo. O tema da infância está
presente em 11 poemas marcados pela indignação diante do abandono
das crianças nas ruas e o saudosismo de uma infância feliz apesar
da pobreza. A negritude e o ofício do poeta são outros dois temas
recorrentes na obra.
Há
um poema acróstico que serve de apresentação do poeta: “
Feito/
Um/
Zangado que/
Zomba/
Inteligentemente
do/
Labirinto
”. Mas essa formulação poética não
corresponde muito ao espírito de sua obra. Fuzzil não se mostra
muito zangado, tampouco zomba das situações que aborda. São poemas
simples, diretos, de fácil compreensão, como indicam os versos de
Afoito: “Sigo em frente/Não sou louco/Sou poeta/Sou da rua/
Sou menino/ sou afoito/ sou Revel/ sou perigoso/ sou Fuzzil/ não
fusível/sou eu/ que faço/ meu jogo
”. Aqui ele demonstra
certa determinação e lucidez, elementos fundamentais de sua conduta
como poeta e faz um trocadilho com a palavra fuzil e fusível,
sugerindo que o primeiro tem poder de fogo, atira, ao passo que o
segundo é apenas suporte para transmissão de energia elétrica.
Sobre
o universo infantil, o poema
Brincando de Giz é uma
composição de tom lúdico: “Gosto de trovas/ infantis/ adoro
brincar/ com giz/ risco a lousa/ faço arte/sou criança/sou feliz
”.
Em
História, Fuzzil relata sua infância pobre sem
ressentimento: “Sei muito bem de minha história/O que fiz em
outrora/As cabuladas de escola/rebeldia de menino/na garoa ou no sol
ardente/empurrando meu carrinho/não de plástico, pequeno/falo de
minha carrocinha
”. Já em
Antonio, demonstra sua
sensibilidade com as crianças abandonadas nas ruas: “Olha só quem
vem ali/Descalço e sem camisa/ não é quem você pensou/é apenas
um garoto de rua
”.
A
negritude aparece com grande ênfase em dois poemas:
De A a Z
e
Preto do Gueto. No primeiro, ele percorre o alfabeto
catalogando palavras relacionadas ao negro: “Com A escrevo África/
Com B escrevo Bantos/ Com C escrevo Chibata/ Com D escrevo Dandara
”
e assim por diante. O ofício do poeta está presente diretamente em
dois poemas:
Sou Eu e
Poema. Neste último ele brinca:
“Quando falam em poesia/ fico todo esfuziante
”,
ressaltando o quanto o ato de fazer poesia é para ele estimulante.
Fuzzil
destacou-se após a publicação desse livro que chamou a atenção
tanto pela poesia quanto pelo projeto editorial. Vendeu rápido,
esgotou e o poeta logo providenciou outro livro. Devido à projeção
que adquiriu passou a frequentar outros saraus da cidade, tendo uma
acolhida especial na zona noroeste junto aos saraus Elo da Corrente
(Pirituba) e Poesia na Brasa (Brasilândia), embora tenha mantido
residência na periferia da Zona Sul.
Dos olhos pra fora mora a liberdade
Casulo
segue a tendência dos autores da Era Lula em termos de temática. Há
pouquíssima referência à violência, às drogas e a outras mazelas
que afligem a periferia. A própria palavra periferia aparece poucas
vezes e de forma positiva quase sempre. Embora não esteja organizado
por capítulos, os textos estão ordenados por assunto. O tema mais
relevante é a natureza com cerca de 20 textos. As criações de
inspiração amorosa aparecem também nesse autor com importante
ênfase, seguindo a tendência dos demais autores masculinos com uma
abordagem de reverência e exaltação à mulher.
Casulo
também faz poemas satíricos com boa dose de escárnio, como
Igualdade Absoluta, no qual divaga sobre a flatulência
humana. A negritude e as desigualdades sociais completam o universo
temático do autor que tem bom manejo das palavras, fazendo intenso
uso de metáforas e trocadilhos, invertendo o sentido dos vocábulos,
compondo textos fluentes de agradável leitura na maioria das vezes.
O
primeiro bloco do livro aborda as relações afetivas entre homens e
mulheres, pais e filhos, vida em família e amizade. Antes, porém,
Casulo dedica dois textos ao ofício do poeta. Em um deles,
O
poeta e seu papel ecológico, afirma: “o mesmo texto indicado
para as miopias cerebrais, que resulta em ignorância, age também
nos corações como sensibilizador. Deve ser tragado pelos dedos, mas
seu conteúdo vai direto para a cabeça. Seus efeitos colaterais são:
exercício da cultura, sapiências, senso crítico…”.
Ao
abordar o tema da família, o autor faz de sua vida pessoal um
exemplo a ser seguido. Em textos próximos da crônica dá suas
receitas de como ter uma família feliz: enaltece o casamento e a
figura da “mãe guerreira” e progenitora como expressa no poema
Dando a luz: “Quando a mãe contempla, beija com os olhos/
Pra cuidar da cria ela acorda cedo!/ Sempre madruga com o passaredo/
Assim como a lua tem fases e brilhos
”.
Quando
o tema é relação homem e mulher, Casulo é irônico e assume o eu
lírico de uma mulher no texto
Minha mulher com papo de
Amélia: “Não vale a pena viver trocando de marido, porque
homem é tudo igual, só muda os documentos e o endereço… O meu,
por exemplo: é homem até de baixo d´água! Por isso procuro dar
uma assistência qualificada pra concorrência não criar asa”.
Pelo título é possível deduzir que ele satiriza a abordagem da
mulher submissa, porém o efeito é duvidoso e, talvez, só se
efetive na entonação da leitura em voz alta, fazendo a caricatura.
O autor aqui cai na armadilha de querer falar pela mulher,
procedimento de alto risco de incidência machista.
Nos
textos de humor e sarcasmo, Casulo abusa dos trocadilhos:
“Pé-de-moleque quando cresce, deixa a bola de lado pra correr
atrás dos rabos de saia empinando pipas com fio dental na areia da
praia…”. A fim de discorrer sobre aspectos da fisiologia humana
que iguala ricos e pobres, enxerga nos gases e nas fezes um
denominador comum: “Os gases que soltamos são aromas do que
comemos, para apodrecer dentro da gente se transformando em urina e
excrementos. Todo animal, seja lá qual for é uma fábrica de
estrumes. Perante à natureza, todos nós somos iguais, não importa
o tamanho do seu tesouro, grande merda se você defeca numa privada
de ouro”.
Mas
é nos temas relativos à ecologia que Casulo apresenta suas
composições mais elaboradas. Nessa temática ele tem dois textos
que já são clássicos na Cooperifa. Um é
Meu vizinho
passarinheiro e o outro é
TV Fábula. No primeiro, diz:
“Meu vizinho passarinheiro, já sabia desde pequeno, que todas as
outras espécies que ele trancafiava por curiosidade poderiam até
ser alguns canários, mas nunca canalhas, para perder o direito de
bem-te-ir e vir …”. Já no
TV Fábula um papagaio repórter
faz uma denúncia: “O tamanduá levantou a bandeira em defesa dos
animais em extinção… Dizendo que as onças querem continuar vivas
para que, futuramente, não sejam apenas pintadas!”.
E
dessa forma Casulo articula seus pensamentos, críticas, denúncias,
devaneios e delírios. De uma forma irônica, picaresca, um tanto
traquinas atenuando assim uma tendência conservadora quando trata de
mulher e família. Seu discurso não é ideologizado e é pouco
politizado. Sua crítica social é intuitiva e se nutre de uma aguda
sensibilidade para com o sofrimento humano e o descaso com a
natureza. Consegue assim ser compreendido e sua mensagem acaba se
expandindo com grande eficácia nos saraus e nos livros. “E ao me
preocupar com os problemas do mundo, minha família fica imensa, mas
meu coração há de crescer junto”. ....